De todos os restaurantes de São Paulo, as sobremesas que mais me marcam, daquelas que me fazem fechar os olhos na primeira garfada, estão no Maní. Não é entusiasmo gratuito. Há ali um trabalho consistente, amadurecido ao longo dos anos, não só ligado à liderança de Helena Rizzo mas também à atuação da talentosa Brenda Freitas, chef confeiteira da casa. Em 2026, Brenda completa dez anos no restaurante, um dado que ajuda a entender a solidez e a identidade do que chega à mesa.

Esse repertório agora ganha um menu-degustação dedicado exclusivamente às sobremesas criadas por Brenda e Helena. A proposta é clara e bem executada: permitir que o cliente percorra, em uma única experiência, a cozinha doce do Maní. São seis sobremesas e cinco petit fours, pensados para serem compartilhados por duas pessoas, no almoço ou no jantar, por R$ 240 (com harmonização opcional de R$ 180 por pessoa).

O menu reafirma aquilo que considero a assinatura da casa: técnica precisa, ingredientes brasileiros tratados com visibilidade e e respeito, e combinações que desafiam expectativas. Logo de início o menu chega como um abraço: o aluá com coco, bacuri e tucupi preto estabelece o tom – acidez, doçura e fermentação em diálogo equilibrado. O gin com toranja, azeitona e patchouli aposta em um caminho mais aromático, elegante, quase etéreo, e funciona justamente por não forçar intensidade. 

O menu percorre com naturalidade o contraste entre sabores novos e inesperados e aqueles que acolhem, criando uma sequência que se mantém sedutora do começo ao fim. Há conforto imediato na abóbora com arroz-doce e cajá, cremosa, envolvente, com doçura contida e acidez que limpa o paladar. O figo em três texturas com ricota, mel e pólen de uruçu-amarela evidencia a técnica em primeiro plano: camadas bem definidas, sabores límpidos, precisão na execução e leitura clara em boca (e no coração).

A baba ao rum com uva revisita o clássico com muita beleza e delicadeza. Já “Da lama ao caos”, talvez o prato mais arriscado do menu (e que ganhou muita visibilidade após aparecer no Master Chef confeitaria), aposta na tensão entre o vegetal, o ácido e o aromático. A berinjela surge profunda e terrosa, equilibrada pela frescura da coalhada, pelos cítricos da lima-da-Pérsia e pelas notas florais e tostadas do pistache, da flor de laranjeira e do gergelim. O resultado é uma sobremesa complexa, instigante e inesperadamente delicada, que provoca sem romper o fio doce da experiência.

Os petit fours encerram a experiência com leveza e intenção: a delicada pavlova com lírio-do-brejo e acerola desmancha na boca, o bombom de bacuri explode em frescor, a surpresa da kinkan com castanha-de-pequi, e a releitura do cajuzinho (vale esquecer por um momento a versão de festinha infantil, porque aqui ele leva polpa e castanha-de-caju, buscando uma conexão mais honesta com o nome do doce sem abandonar sua carga afetiva) e chocolate com compota de frutas. Todos reforçam o eixo brasileiro que sustenta o menu.

O resultado é um menu que constrói uma narrativa sensorial coerente, com pratos bem calibrados, que oferecem conforto sem abrir mão de gestos autorais e reflexão técnica. Uma experiência para ser vivida sem pressa, em boa companhia e, sim, para sair sorrindo, com a sensação de que a confeitaria brasileira está em ótimas mãos.


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