Pense em uma comida feita com ingredientes frescos, sazonais e nutritivos. Uma comida que dá prazer, mas não empanturra. Cheia de sabor e que faz valer cada centavo gasto.

Se você não me conhece, provavelmente idealizou uma bela salada, cheia de legumes grelhados e um molho sofisticado. Talvez um peixe bem preparado, um cuscuz ou uma deliciosa sopa. Se você gosta de pratos mais encorpados, pode ter pensado em uma galinhada, um picadinho e, quem sabe, até em uma simples torta de palmito. Mas é bastante improvável que tenha pensado na sobremesa, ou no doce do meio da tarde.

Apesar de não ser socióloga, tenho algumas percepções a partir do olhar e curiosidade de quem produz e oferece sobremesas. São essas ideias e direções que gostaria de compartilhar aqui.

Fazendo uma busca rápida na internet sobre receitas fáceis e rápidas para servir depois do almoço — afinal, quem está com tempo sobrando para cozinhar com calma, não é? —, nos deparamos com uma infinidade de opções que contam com facilitadores industrializados para chegar ao resultado final. São leites condensados, pastas de avelã e chocolate, e leites em pó que, misturados com bolachas prontas, cremes de leite de caixinha e outros subterfúgios, saciam o desejo pelo açúcar tão merecido.

Mas essa fotografia que encontramos na web sobre a doçaria popular brasileira não é tão antiga assim. Foi apenas na década de 1960, logo ali na história, que a indústria alimentícia enxergou a oportunidade de se infiltrar nesse mercado, começando com o leite condensado. Esse produto, feito originalmente para alimentar soldados durante a guerra, passou a ser usado como fórmula para complementar a alimentação infantil e, então, se tornar quase onipresente nas casas brasileiras até hoje. Assim, nos tornamos o país que mais consome leite condensado no mundo.

Não pretendo me ater a essa história já muito conhecida e compartilhada por quem se interessa pelo assunto. Meu ponto é que, quando a indústria alimentícia resolveu se infiltrar em nossa doçaria, abraçamos esse rumo como se não houvesse alternativa. E seguimos consumindo pasta de avelã que contém somente traços da oleaginosa ou chocolates com porcentagens muito baixas de cacau, de qualidade duvidosa.

Desde o fim dos anos 2000, uma nova classificação dos alimentos feita pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo, passou a compreendê-los a partir do propósito e do grau de processamento, o que abriu espaço para entendermos o padrão de consumo alimentar das pessoas sob outra perspectiva.

Os alimentos foram organizados em quatro grandes grupos: 

1. Alimentos in natura ou minimamente processados;
2. Ingredientes culinários processados;
3. Alimentos processados
4. Alimentos e bebidas ultraprocessados, desenvolvidos com o propósito de causar dependência e, assim, vender mais.

A partir dessa classificação, ficou evidente a contribuição do último grupo (4) para os efeitos danosos à nossa saúde, com sua maior incidência ligada à dieta regular de pessoas com doenças como diabetes, obesidade, pressão alta, entre outros.

Em 2014, o Guia Alimentar para a População Brasileira foi elaborado utilizando essa mesma classificação como norteadora para pensarmos a forma de nos alimentar sem grandes regras, mas respeitando nossa cultura e biodiversidade, e estimulando a população a optar por alimentos dos primeiros grupos.

Ainda que o Guia trate da alimentação como um todo, nós, consumidores, raramente colocamos os doces nessa conta. A partir de uma visão de demonização do açúcar, colocamos a sobremesa sempre em um lugar do pecado, da extravagância ou da recompensa. Afinal, depois de tanto sofrimento, eu mereço! Mas merecemos o quê, exatamente? Gordura hidrogenada, açúcar em excesso, corantes, aromatizantes, estabilizantes? Misturas pouco ou nada nutritivas, muito distantes do que podemos chamar de COMIDA?

Assim, quando nos damos conta, estamos aceitando a ideia plantada pela indústria de que não há possibilidade de fazer uma boa sobremesa em casa sem abrir uma lata, e chegando ao cerne de minha angústia. Ao não considerarmos o doce, a sobremesa, como parte integral da nossa alimentação, nos permitimos consumir produtos que nada oferecem para além de um prazer efêmero e de mal-estar a longo prazo.

DOCE É COMIDA

Ao defender uma dieta rica em diversidade, podemos incluir, com carinho, a presença de doces de qualidade, que façam parte da nossa cultura real e da nossa memória afetiva. Ao apoiar uma dieta rica em biodiversidade, podemos adicionar em nossos doces as frutas de todos os cantos do Brasil, cada uma com sua peculiaridade, com sua riqueza de sabores e nutrientes. O Brasil é o país das frutas, e podemos honrá-las em nosso cardápio. Como disse João de Barro (o Braguinha), “banana, menina, tem vitamina! Banana engorda e faz crescer!”.

Ao considerar o doce parte da nossa alimentação, consideramos que o doce é COMIDA. E, assim, podemos tratá-lo como tal. Podemos usar nossas farinhas de mandioca, milho, araruta, babaçu. Nossas especiarias. Nossa rapadura e nosso mel. Podemos usar as nossas castanhas.

Comer com culpa só serve aos propósitos de um sistema cruel, em que os ganhadores nunca somos nós, cidadãos. Por isso, eu peço: coma sem culpa o bolo que sua mãe faz. Faça um biscoito junto com seus filhos e crie com eles bons momentos na cozinha. Coma com alegria, inclusive, o brigadeiro das festas infantis. Compre de pessoas que priorizam os bons ingredientes. Coma menos e coma melhor. Cozinhe sua comida sempre que puder. Evite os ultraprocessados em sua alimentação. Trate o seu doce como comida, cuide de você e do que você come. A recompensa será muito melhor.

Marilia
Zylbersztajn

Confeiteira e autora do livro “Marilia Zylbersztajn: Receitas da minha cozinha para a sua casa”, lançado pela editora WMF Martins Fontes (2025). Formada em pâtisserie e panificação na escola Le Cordon Bleu em São Francisco, trocou a psicologia pela confeitaria e desde 2013 se dedica a sua cozinha artesanal.


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