Kohakutō é tradição japonesa
que começa a chegar ao Brasil
Feito com ágar-ágar, doce centenário simula pequenos cristais comestíveis que convidam a olhar o mundo com calma.
À primeira vista, o kohakutō parece uma pequena pedra preciosa. As cores, o brilho e os formatos despertam a curiosidade. Mas é na primeira mordida que vem a surpresa: uma casquinha crocante por fora e um doce macio por dentro. Para mim, essa combinação de beleza, sabor e textura é o que torna esse doce tão especial.
O kohakutō é um doce tradicional japonês, com uma história que vem do período Edo (1603–1868). Seu nome faz referência ao âmbar, por causa da cor que algumas das primeiras versões recebiam. Ele faz parte dos wagashi, como são chamados os doces tradicionais do Japão.
Sua receita básica leva água, açúcar e ágar-ágar, um ingrediente extraído de algas que ajuda a dar firmeza à mistura (leia mais sobre esse gelificante no artigo do Sobremesah). São poucos ingredientes, mas a simplicidade aparente exige cuidado extra em cada etapa para que o resultado seja perfeito.
Depois de ir ao fogo, a mistura é colocada em uma bandeja para esfriar e ficar firme. Nesse momento é formada a placa gelificada que depois será cortada ou partida em pequenos pedaços antes de ser envolta em açúcar e ir para a secagem.
Com o passar dos dias, a parte de fora perde água e o açúcar formará uma casquinha crocante. O interior continua macio. É essa diferença que faz a experiência de comer kohakutō ser tão marcante.
É também uma parte do trabalho que nos ensina a ter paciência. O doce precisa de tempo para ficar pronto. Dependendo da temperatura e da umidade ambiente, quase uma semana.
No preparo artesanal, os cristais podem ganhar forma à mão, sem o uso de moldes para deixar todos iguais. Cada peça apresenta pequenas diferenças no corte, na cor e no formato. Gosto de pensar que esse é um dos encantos do trabalho artesanal: os doces combinam entre si, mas cada um tem seu próprio formato e personalidade.
No Japão, a aparência dos doces tem uma relação forte com a natureza e as estações do ano. Cores e formas ajudam a contar uma história. O kohakutō pode acompanhar o chá, fazer parte de uma pausa em casa ou ser oferecido como presente.
Outros países da Ásia também têm doces parecidos, como o mứt rau câu, do Vietnã, feito com ágar e açúcar. Cada lugar tem suas próprias receitas e formas de preparar. Nos últimos anos, as fotos dos cristais e os vídeos mostrando sua textura ajudaram mais pessoas pelo mundo a conhecer esse tipo de doce.
Aqui no Brasil, vejo muitas possibilidades de trazer sabores locais para essa tradição japonesa de mais de 400 anos. Maracujá, manga e abacaxi, por exemplo, podem criar ligação entre algo novo e um sabor que já conhecemos.
Também é possível explorar chás, café e bebidas alcoólicas como umeshu e limoncello. Mas cada combinação precisa de testes. Dependendo da acidez, do PH e do teor alcoólico da polpa de fruta ou da bebida pode mudar a firmeza, a cor e o tempo de secagem do kohakutō. Criar um novo sabor exige provar, observar e ajustar.
Para mim, uma das partes mais interessantes desse trabalho é descobrir novas possibilidades e, ao mesmo tempo, respeitar a origem do doce. Conhecer sua história ajuda a entender o cuidado que existe por trás de algo aparentemente simples.
Esse cuidado também aparece na hora de presentear. A escolha dos sabores, a combinação das cores e a maneira de organizar os cristais em uma caixa fazem parte da experiência de quem recebe.
Um presente pode mostrar que pensamos em alguém. E um doce feito com atenção pode levar um pouco desse carinho para uma visita, uma comemoração ou um encontro em volta da mesa.
É assim que vejo o kohakutō: um convite para olhar com calma, experimentar algo diferente e compartilhar um pequeno momento de prazer.
ERICA
KAWABE
Erica Kawabe é japonesa, vive no Brasil e está à frente da KŌH.WA, marca de kohakutō artesanal em São Paulo. Depois de uma carreira no mundo corporativo, reúne suas raízes japonesas e as experiências dos diferentes países onde viveu em sua paixão por criar doces, descobrir sabores e aproximar pessoas.
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