PARA SE APROFUNDAR NA HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO NO BRASIL
Sou apaixonado pela história da alimentação e, por isso, apresento uma lista mais do que especial para quem, como eu, deseja se aprofundar na nossa rica cultura alimentar.
Fui o convidado do Clube do Livro Sobremesah e mostrei minha estante que, como bom museólogo e apaixonado pelo tema, organizo por categorias específicas. Compartilhei também uma curadoria — nada fácil de sintetizar — com obras de autores fundamentais para quem deseja iniciar ou se aprofundar na história da gastronomia e da alimentação no Brasil.
Boa leitura!
LUÍS DA CÂMARA CASCUDO
Câmara Cascudo é o autor-base indispensável para compreendermos a formação da nossa culinária. Nascido em Natal (RN) em 1898, foi historiador, antropólogo, advogado e jornalista. Seus estudos voltaram-se, principalmente, para a cultura popular, o folclore e a alimentação brasileira. Deixou contribuições bibliográficas monumentais, como o Dicionário do Folclore Brasileiro e, no campo gastronômico, os clássicos História da Alimentação no Brasil e Antologia da Alimentação no Brasil.
O livro História da Alimentação no Brasil é o mais completo estudo já feito sobre a cozinha brasileira em seus múltiplos aspectos. Em suas quase mil páginas, o autor destrincha a evolução dos hábitos alimentares, os elementos sociais que envolvem o ato de comer, a sociologia da mesa e suas superstições. Ainda que apresente a formação alimentar brasileira sob a ótica da fusão das matrizes indígena, africana e europeia — uma teoria hoje revista e desmistificada pela historiografia e antropologia modernas —, a obra permanece como a verdadeira “bíblia” do tema, graças à inestimável riqueza de pesquisas reunidas por Cascudo.
Já em Antologia da Alimentação no Brasil, o autor organizou pequenos textos temáticos, escritos por ele e por outros antropólogos, sociólogos, viajantes e historiadores — como Hildegardes Vianna, Sodré Viana e Jean-Baptiste Debret. A publicação aborda aspectos específicos e curiosos, como a dieta do Imperador, os molhos baianos e até o costume de esconder comida na gaveta para não ter de oferecer. Tudo tratado de forma leve e divertida, sem jamais perder o rigor historiográfico.
GILBERTO FREYRE
Gilberto Freyre nasceu no Recife (PE) em 1900. Foi um dos mais influentes sociólogos e escritores brasileiros, dedicando-se a interpretar a formação social do país sob múltiplos prismas. Dedicou grande parte de sua obra a compreender a formação econômica e histórica do Nordeste, tendo como pano de fundo a sociedade açucareira do período colonial.
Desses estudos nasceram obras primordiais para a historiografia nacional, como Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos, fundamentais para entendermos a estrutura social e patrimonial brasileira.
Freyre contribuiu diretamente para a história da alimentação no Brasil em diversos trabalhos, mas é em Açúcar: uma sociologia do doce (publicado pela primeira vez em 1932) que seu olhar se debruça especificamente sobre a mesa. Na obra, reuniu receitas tradicionais de bolos, doces e merendas do Nordeste — em especial de sua terra natal —, constituindo uma bibliografia essencial para compreender a importância sociológica do açúcar na construção cultural do Brasil.
PAULA PINTO E SILVA
Paula Pinto e Silva é antropóloga, mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).
Seu livro Farinha, Feijão e Carne Seca: um Tripé Culinário no Brasil Colonial, fruto de uma consistente pesquisa acadêmica, lança um olhar para a cozinha colonial do Brasil sob o viés antropológico. Com um texto fluido e de fácil compreensão, a autora elucida como esse trio de ingredientes foi fundamental para constituir a base da cultura alimentar brasileira.
CARLOS ALBERTO DÓRIA
Doutor em Sociologia pela Unicamp, Carlos Alberto Dória possui uma longa e profícua trajetória de pesquisa no campo da alimentação. Autor de diversos livros na área de gastronomia e sociologia da cultura, ele analisa a formação culinária brasileira sempre sob uma perspectiva histórica e crítica.
Todas as suas obras contribuem de maneira essencial para a compreensão do tema, com destaque para Formação da Culinária Brasileira e A Culinária Caipira da Paulistânia.
No primeiro, Dória propõe uma nova abordagem para compreendermos nossa história a partir dos insumos centrais — mandioca, milho, arroz e feijão — e de como eles refletem as escolhas alimentares locais. Com isso, o autor desconstrói visões simplistas que dividem a cozinha brasileira meramente por regiões ou que tentam explicá-la apenas pela tradicional tríade do negro, branco e indígena.
Já em A Culinária Caipira da Paulistânia, Dória debruça-se sobre a formação gastronômica do vasto território antigamente chamado de Paulistânia — área que hoje abrange partes das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A obra exalta a cozinha caipira, fundamentada no milho e no porco, que por muito tempo foi renegada ou considerada secundária.
RAUL LODY
Antropólogo e museólogo, Raul Lody tem seus estudos e publicações voltados para a história da culinária na Bahia, a trajetória do açúcar no Nordeste e as tradições das religiões de matriz africana, com destaque para o Candomblé. Criador e curador do Museu da Gastronomia Baiana, Lody também assina artigos fundamentais sobre a cultura alimentar afro-brasileira no projeto Brasil Bom de Boca.
Dentre suas inúmeras publicações, destacam-se os títulos nascidos a partir dos seminários promovidos no Museu da Gastronomia Baiana: Dendê: símbolo e sabor da Bahia, Farinha de Mandioca, Águas de Comer e Coco. Para aprofundar-se na cozinha baiana, obras como Brasil Bom de Boca, Kitutu e Bahia bem temperada são leituras indispensáveis.
No campo do açúcar, Lody traz contribuições valiosíssimas para compreendermos o papel da doçaria na formação cultural brasileira com Doce Pernambuco, Caminho do Açúcar e o Vocabulário do Açúcar. O autor também participou ativamente da reedição do histórico Dicionário do Doceiro Brasileiro.
GUILHERME RADEL
Guilherme Radel foi um incansável estudioso da culinária baiana, autor das marcantes obras A Cozinha Africana da Bahia, A Cozinha Praiana da Bahia, A Cozinha Sertaneja da Bahia e A Doçaria da Bahia.
Seus livros apresentam um painel geral da cozinha baiana, articulando aspectos históricos, sociológicos, antropológicos e etnográficos. Ao lado das pesquisas de Raul Lody, os estudos de Radel são cruciais para compreendermos a gastronomia da Bahia — e do Nordeste como um todo — para além do clichê da “cozinha de azeite”, revelando a complexidade de suas matrizes sertanejas, litorâneas e africanas.