Em tempos de rede social, não há dúvidas de que o fator “uau!” tem peso duplo na eterna disputa por clientes. Mas a busca pela atenção do público e dos algoritmos tem gerado um  movimento curioso na confeitaria: a aproximação com o fast food. Com foco no inusitado e no lúdico, surgem “batatas fritas” de cookies e “hambúrgueres” feitos com massa de bolo e brigadeiro, ou mesmo a partir de finas casquinhas de macaron, desafiando a lógica do segmento na estética e no sabor. 

Em parceria com o Guia do Hambúrguer, a May Macarons, em São Paulo, criou uma edição limitada do doce nos sabores blue cheese, bacon, picles e batatinha frita
Cred: Divulgação/ May Macarons

Conhecidas como cake burguer, x-bolo ou sweet burger, as criações que fazem alusão ao sanduíche são feitas com camadas de bolo branco, muitas vezes salpicados com gergelim no topo, em referência ao pão; uma camada generosa de brigadeiro envolto em granulado no lugar da carne grelhada; e morangos para fazer papel dos tomates. Ketchup e mostarda são substituídos por calda de frutas vermelhas e amarelas.

Participar de trends na alimentação deve ir além do visual para contemplar sabor como o X-Bolo, do confeiteiro Chico Zinneck.

Cred: Divulgação/Chico Zinneck

Para o confeiteiro-artista Chico Zinneck, que também entrou na trend, a “busca pelo estranhamento” e pela surpresa de comer algo doce que remeta a um prato salgado não é novidade. Em 2016, ele já brincava com a ideia em bolos modelados como hambúrguer, mas a preocupação com o sabor sempre acompanhou. “Fiquei pensando o que podia fazer para remeter ao alface sem ficar limitado ao visual”, conta. O resultado foi inserir uma fina panqueca de limão para fazer as vezes de alface e uma lâmina de gelatina de maracujá como queijo. A composição ainda leva bacon caramelizado para trazer crocância e confundir ainda mais as papilas.  

Em Recife, as chefs Aguinalda e Alessandra Gomes, da confeitaria A’macaron criaram o Hamburgueron para um Festival de Comida Ogra. Com o tamanho de um hambúrguer original, as conchas feitas com massa de macaron eram recheadas com ganache de queijo, bolo red velvet, fatias de morango fresco e ganache de chocolate branco com corante verde para simular o alface. “Batatas fritas”, feitas com ganache de chocolate branco processado com com chips do tubérculo, acompanhavam o prato.

Feito para o Festival da Comida Ogra, o Hamburgueron dA’macarons, em Recife, levava ganache de queijo e bolo red velvet na composição

Cred: Divulgação/A’macarons

Levando a ideia de simulacro mais adiante, Mayra Toledo, proprietária da May Macarons, em São Paulo, lançou em edição limitada uma coleção de macarons em collab com o Guia do Hambúrguer com coquilhas temperadas com sal, pimenta do reino e gergelim e recheios de ganaches de blue cheese, bacon, picles e batatinha frita. O kit ainda vinha com sachês de “ketchup” de geleia artesanal de tomate e “maionese” de ganache de coentro. 

“Nossa intenção foi trazer um toque mais salgado ao doce mesmo. Na França, já existem lojas e livros voltados aos macarons salgados. Estou adorando também trabalhar um pouco nesse caminho”, diz a confeiteira, que apostou na boa aceitação do macaron de queijo coalho com rapadura lançado há alguns meses para ir além. “O de queijo já se tornou um dos queridinhos da vitrine”, completa ela, que aposta na presença cada vez mais destacada do sal na confeitaria. 

Inspiração fora da caixa e parcimônia

Acostumada a trazer sempre novidades para movimentar sua marca de chocolates, a empreendedora Michele Kallas, da Mica Chocolates (SP) costuma buscar inspirações em outras culturas para colocar no cardápio algo que seja inusitado, seja no sabor ou no formato. Foi assim que por lá já surgiu a “pizza” de chocolate com bacon e milho e, mais recentemente, o mini-hambúrguer no qual o “pão” era feito com chocolate branco caramelizado, com toque de brioche e sal; a “carne” com chocolate 54% com crocante e sal defumado; e o “queijo” com chocolate branco de queijo. A caixinha ainda vai acompanhada de crinkle fries: chocolate branco caramelizado, castanha de caju e batatinha chips em formato de batata frita.  

“É preciso entender como trazer esses elementos salgados para o chocolate e garantir que o produto final fique agradável ao paladar. As pessoas precisam provar e pensar: ‘Nossa, faz todo sentido’, a exemplo do nosso bombom de batata frita, que nasceu após uma viagem para a Espanha, onde provei um torrone com essa combinação”, pontua Michelle.

Marca de chocolates aposta no inusitado de sabores no cardápio (esquerda) • Cookie fries da sorveteria Mooi Mooi: massa de cookies assada em formato de batata frita para acompanhar o sorvete. (direita)

Cred: Divulgação/Mica Chocolates e Mooi Mooi

Nem mesmo as sorveterias têm ficado de fora da trend. Recentemente, a Mooi Mooi, do chef catalão Oscar Bosch junto à esposa Mel Kolanian, lançou em São Paulo os cookies fries, que nada mais são do que massa de cookie assada em formato de batata frita, vendidas para acompanhar o sorvete de leite. Com direito a calda crunch de cereal, a sobremesa remete claramente à combinação de batata frita com sundae que muita gente já fez ou viu alguém fazer no McDonald’s.

E os exemplos não param por aí ou se restringem ao Brasil. Nas redes sociais encontra-se facilmente cookie friesbrownie fries pelo mundo, mas antes de participar de qualquer tendência é preciso pensar se ela faz sentido para o seu negócio e, principalmente, caso decida que sim, entregar um produto que realmente agrade o cliente para que o tiro não saia pela culatra. 

“A confeitaria sempre trabalhou com um pouco de magia, uma pitada de elemento lúdico, mas antes disso é preciso pensar no equilíbrio do todo e na composição de cada elemento para não ficar grotesco ou virar uma piada de mau gosto”, aponta Joyce Galvão, autora do livro A Química dos Bolos


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