ONDE COMER NA REPÚBLICA, NO CENTRO DE SÃO PAULO
Um convite para explorar o movimento #vemprocentro e viver o renascimento cultural e gastronômico paulistano do centro de São Paulo.
Eu não conhecia o centro da cidade. Não como deveria. Sempre fui alertada dos “perigos” do centro e, por conta disso, evitava a região. Lembro-me uma vez que fui jantar no Terraço Itália e o motorista do táxi, mesmo relutante em me levar à República, foi efusivo: “Quando eu parar o carro, por favor, desça rápido. Não gosto de parar por esses lados”. Tremi. Apertei a bolsa ao corpo e desci com o salto na mão (imagina só se eu ia conseguir descer rápido de um taxi e ainda de salto alto!).
Lembro-me de ir ao Bar da Dona Onça logo que inaugurou, há 15 anos! Ah, o picadinho inesquecível da Janaína! Hoje ele já virou um clássico da cidade, mas que eu, infelizmente, nunca mais frequentei! Também lembro de ver A Casa do Porco Bar nascer, acompanhando de longe, pela internet. Desejando provar o tal do Porco a San Zé e as sobremesas da ex-confeiteira da casa Saiko Izawa, hoje no Rosewood. Foram 3 anos de espera e desejos, 3 anos…!
Tamanha bobeira de minha parte, deixei de viver boas experiências por puro rótulo de quem viu o centro entrar em decadência e se nega a enxergar que uma nova vida surge ali. Novos bares, novos restaurantes e moradores que querem que o centro de São Paulo se renove e cresça. Por isso, o movimento #vemprocentro tem mais de 1 milhão de fotos no Instagram e vem conquistando (e reconquistando) os paulistanos a finalmente darem uma segunda chance a esse pequeno e tão importante pedaço da cidade.
Atraídos por boas opções de bares, restaurantes e baladas o Centro ganha uma nova energia. Aqui do 32° andar do Copan, onde escrevo, ouço o centro respirar, renovado e pronto para uma nova e brilhante etapa na vida de São Paulo.
E, se você quer sentir essa nova São Paulo, venha para o Centro e siga minhas garfadas. Tenho certeza de que você vai se surpreender!
ORFEU
Acordei cheia de preguiça em um domingo de céu limpo e ensolarado. Preparei minha xícara de café e, como sempre, admirei o horizonte de São Paulo, que revelava o Pico do Jaraguá com todos os seus detalhes. Já era tarde e meu estômago, insatisfeito com apenas poucos goles de café me avisou que seria bom pensar no almoço.
Aproveitando que a fome veio antes dos restaurantes ganharem longas filas, decidi, finalmente, conhecer o restaurante Orfeu, localizado no térreo do Edifício Vila Normanda, numa ruazinha sem tráfego, juntinho aqui do Copan.
Eu sempre preferi entrar no Copan pelo bloco A para observar o movimento do Orfeu e suas mesinhas na calçada. Gosto de olhar para o mezanino, onde o restaurante se transforma em bar e pista de dança com terraço aberto para a Avenida Ipiranga.
Mas meu interesse maior é espiar o que a galera anda escolhendo no cardápio com ideias pinçadas em diferentes regiões do Brasil. Da grelha, que pode ser vista do salão (e também da rua), bife ancho com brócolis e tomate na brasa por 118 reais, polvo na brasa com aioli (serve muito bem duas pessoas por 124 reais) e uma macia costela de boi de 16 horas com farofa de ovo (360 g a 109 reais). Dos pratos especiais o picadinho da casa com couve rasgada e bananinha na chapa (69 reais) a um delicioso e farto baião de dois vegetariano (49 reais), que, na minha opinião, são ótimas opções para um delicioso almoço de domingo.
Agora se a sua ideia é botecar, eu apostaria nas entradas como o casquinha de siri (46 reais) acompanha farofa de banana e vinagrete, ou a barriga de porco com chutney de manga (6 unidades por 46 reais).
A CASA DO PORCO
Comandado pelo chef Jefferson Rueda e Janaína Torres, A Casa do Porco Bar foi o eleito para o meu jantar de comemoração da primeira noite vivida no edifício Copan. Ah, que delícia poder sair a pé de casa e ir a um bom restaurante!
Aqui só entra porco… Digo: só é servido porco! Do cabo ao rabo, literalmente! Por isso comece com um bom caju amigo (35 reais), drink feito com cachaça, suco de caju, limão e compota de caju feita na casa, para já preparar o apetite!
Se for a sua primeira vez na casa, eu acho interessante encarar o menu degustação, assim você consegue provar de tudo um pouco dentre 8 itens servidos. O menu tem duração próxima de 2 horas (com a casa muito cheia esse tempo pode aumentar consideravelmente devido a atrasos no serviço) e sai por 348 reais sem bebida. Ele navega por 3 porções de petiscos frios, 3 porções de petiscos quentes, duas entradas, o famoso porco a San Zé, uma pré-sobremesa bem refrescante, uma sobremesa e docinhos para acompanhar o café.
Se você quiser apostar fora do menu, comece pela porção de torresmo de barriga de porco com goiabada seguido pelo carro chefe do chef, o porco a San Zé (115 reais): pedaços de carne úmida com pele vitrificada de um porco desossado e assado inteiro em forno a lenha, aos olhos dos clientes!
Agora se você me permite um conselho: vá com amigos, fome e tempo. O menu é interessante, vasto e delicioso! Além disso, talvez você precise enfrentar uma fila de quase 2 horas para conseguir uma mesa (a menos que chegue cedo!), e, depois de enfrentar a batalha da espera, acho que vale a pena sentar com tranquilidade e curtir toda a atmosfera do único restaurante em São Paulo que celebra o porco como rei!
BAR DA DONA ONÇA
Já são 15 anos de casa, tempo mais que suficiente para tornar o Bar da Dona Onça um clássico da boemia paulistana e que, honestamente, acho que dispensa apresentações. Entretanto, contudo, porém, vamos lá!
Incrustado no edifício Copan, em uma época que ninguém tinha coragem de estabelecer um comércio por lá, está o Bar da Dona Onça, ou melhor dizendo, a casa da onça Janaína Torres, eleita melhor Chef Mulher do Mundo pelo The World’s 50 Best Restaurants em 2024.
Da cozinha saem pratos elaborados com maestria por uma equipe afinada e premiada. São velhos conhecidos dos paulistanos, como a galinhada, que ganha ares de modernidade pelas mãos da chef, a 113 reais, camarão com chuchu (130 reais) e um delicioso picadinho de carne (110 reais). Não pule os petiscos e peça pelo pastelzinho com recheio extremamente suculento, e o croquete de carne de panela é de querer bater a cabeça na parede de tão delicioso (6 unidades a 76 reais).
O bar sempre tem fila, especialmente aos finais de semana. Então, chegue cedo ou aproveite a atmosfera do centro e curta um drink regado a uma boa conversa enquanto aguarda sua mesa!
HOT PORK E SORVETERIA DO CENTRO
Jefferson Rueda e Janaína Torres fizeram o mundo, sim, o mundo(!) inteiro olhar para o centro da cidade. Na A Casa do Porco, por uma janela vende-se deliciosos sanduíches. Basta passar por lá, pedir, pagar e sair andando. Ou comer na calçada mesmo, tanto faz! Tamanho conforto em se encontrar finalmente em casa, e após duas décadas dedicado à alta gastronomia, Jefferson resolveu abrir o Hot Pork e vender cachorro-quente a 36 reais.
Salsicha 100% suína, leve e saborosa, em pão dourado e macio, com ketchup de maçã com especiarias, mostarda fermentada com tucupi e maionese feita na casa é de esquecer o que você conhecia como cachorro-quente por toda a vida. Se o podrão da tia da komboza é bom ou não, essa não é a discussão. A questão é que o Hot Pork provou com categoria que fast food não precisa se reduzir ao lixo industrializado que comemos no McDonald’s.
Entre as grandes redes de fast food que vendem seus “números” a quase 40 reais, prefiro ir ao centro, desbancar minhas moedinhas e comer além de um delicioso cachorro-quente (com opção de salsicha vegetariana feita com cogumelos), uma porção de batatas fritas crocantes e sequinhas e um refresco da casa. Ah, e para melhorar, troco o sorvete de gordura açucarada pelas deliciosas criações geladas da Sorveteria do Centro, servidas em formato de deliciosas sobremesas, como o brigadeiro: sorvete de chocolate amargo com calda de brigadeiro, granulado macio e brigadeirinhos, ou o sorvete de leite com caramelo, porcopoca e bacon. Saio feliz e gasto bem menos que no Burguer King!
RICONCITO PERUANO
Antigamente era uma casa coladinha no metrô República; hoje já são dez casas que se espalham por São Paulo, com direito a presentear aniversariantes com bolo (caso você resolva comemorar seus anos na casa com pelo menos dez pessoas).
Sob o comando de Edgar Villar é possível encontrar, em qualquer uma das unidades, um ceviche tradicional e muito bem servido, além de outras opções com peixes e frutos do mar a um ótimo custo-benefício. Para os amantes da culinária peruana, os pratos quentes como arroz chaufa ou o lomo saltado vem acompanhado de lembranças saudosas para quem, como eu, morre de saudades dos sabores do Peru.
Z DELI
Uma das melhores hamburguerias da cidade tem, além dos endereços de Pinheiros, Jardins e Itaim Bibi, uma casinha no Centro de São Paulo, precisamente na rua Bento Freitas, na República, no térreo do prédio da IAB-SP.
A casa tende a oferecer preços mais baixos que os oferecidos nas outras unidades, além de um maravilhoso croquete de brisket (a 49 reais, 8 unidades) e a pastrami fries com queijo fundido (57 reais). O hambúrguer (46 reais) vem com queijo americano, alface, tomate, cebola roxa, picles e molho especial. O cachorro-quente, com salsicha e mostarda sai a 27 reais.
Aproveite o rolê até o centro para conhecer a Galeria do Rock, passar pela Catedral da Sé e até quem sabe encher a despensa no Mercadão. Depois do passeio é só mandar um hamburgão para dentro e sair do centro feliz da vida, vivendo o melhor de São Paulo, como deve ser!
CUIA RESTAURANTE
E voltamos ao térreo do icônico Edifício Copan, onde encontramos o Cuia Restaurante idealizado pela chef Bel Coelho. O espaço divide-se com as estantes da Livraria Megafauna e está aberto praticamente o dia todo. O Cuia se encaixa em diferentes ritmos: brunch preguiçoso, almoço, café despretensioso, jantar ou drinque ao entardecer. A cozinha aberta reforça a sensação de proximidade, enquanto as mesas externas capturam o fluxo vibrante da cidade.
A proposta é clara e bem executada: uma cozinha cosmopolita, mas profundamente enraizada no Brasil. Ingredientes nativos e agroecológicos conduzem o menu, refletindo a pesquisa contínua de Bel sobre biomas e culturas alimentares. Para qualquer hora, o cookie de chocolate com castanha-do-Pará (14 reais) é daqueles confortos simples e certeiros, perfeito com café. Entre os principais, o Nosso Oswaldo Aranha (93 reais) se destaca: um clássico revisitado com equilíbrio e técnica, sem perder a alma. No fim da tarde, a cozinha flerta com a leveza dos petiscos, como a tempurá de lula na tapioca com ponzu de caju (49 reais), que dialoga bem com a coquetelaria criativa da casa. O Pindorama, por exemplo, traduz bem essa assinatura: brasileiro, inventivo e cheio de personalidade.
As sobremesas seguem o mesmo caminho, como a mousse de chocolate com bacuri, cumaru e castanha-do-Pará (38 reais) é um fechamento potente, que reafirma o compromisso com ingredientes nacionais. A carta de vinhos, enxuta e bem pensada, privilegia pequenos produtores, reforçando a curadoria cuidadosa.
Agora, com licença que a noite vai se estender na Tokyo, uma das melhores baladas de São Paulo (prêmio Nossa Uol 2024) dividindo um karaokê com meus amigos até o dia amanhecer no centro de SP!
Mais uma mordida?
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