COMO ADOÇAR A VIDA DE QUEM VIVE
NA PILHA DAS CANETAS EMAGRECEDORAS
Restaurantes se adaptam ao impacto das “canetas de emagrecimento” com porções menores e sobremesas voltadas a um público que come mais comedidamente, mas não abre mão do doce.
Toda febre tem sua cura – ao menos a grande maioria delas. E a que acomete o mundo na busca pela eliminação das circunferências e volumes indesejados dos corpos de homens e mulheres, protagonizada pelas afamadas “canetas de emagrecimento” – originalmente indicadas para o controle do diabetes – também pode ser domada. Pelo menos na hora de se escolher, no menu de restaurantes, a refeição que irá combinar esforços com Mounjaros, Ozempics e Wegovys – entre tantas outras “canetas” genéricas para o tratamento da obesidade – na sanha de se chegar ao corpo desejado.
Quem já se embrenhou nesse universo dominado pelo GLP-1 – hormônio produzido naturalmente pelo intestino, responsável pela regulação do apetite, da saciedade, do controle da glicose no sangue e presente nas tais “canetas” – sabe muito bem que o principal efeito do medicamento é, basicamente, tirar a vontade de comer. Mas, como apregoa o velho ditado “saco vazio não para em pé”, as pessoas, obviamente, não param de se alimentar; porém, passam a ingerir menos alimentos ou, por vezes, quase nada.
Segundo pesquisa da Bloomberg Intelligence, divulgada em abril deste ano, mais de 50% dos usuários americanos das “canetas emagrecedoras” diminuíram as idas a restaurantes, e um outro relatório do Morgan Stanley apontou que 63% das pessoas que tomam Ozempic pedem porções menores quando comem fora de casa.
“Não tivemos ainda uma demanda específica para quem usa as ‘canetas’, mas percebemos alguns clientes dividindo pratos, desde a entrada até a sobremesa”, conta Gil Carvalhosa Leite, sócio responsável pela operação e hospitalidade dos restaurantes e da boulangerie do grupo Le Jazz, que já começa a pensar em novas receitas, principalmente na padaria, voltadas às demandas deste público.
Segundo Leite, o grupo está sempre atento aos novos hábitos dos clientes para se adaptar a eles. “Por exemplo, quando a cirurgia bariátrica também teve sua febre, o que eu vejo como um prenúncio do fenômeno das ‘canetas’, resolvemos oferecer a possibilidade de pedir pratos em meia porção.”
A redução dos pratos também já acontece nos restaurantes de Nova York. Uma reportagem publicada no início de agosto pelo “The New York Times” revela que muitos restaurantes, como Clinton Hall e Lulla, já estão, há cerca de cinco meses, oferecendo opções de pratos menores ou minis. Sem pudores, um pop-up no site do Clinton Hall divulga a “Teeny-Weeny Mini Meal” (uma microrrefeição), com miniporções de hambúrguer, fritas e um minicopo de cerveja ou vinho por US$ 8.
Até bares estão reduzindo o tamanho dos drinques, focados em sua clientela de usuários de GLP-1. O Back Bar, do Eventi Hotel, por exemplo, oferece uma versão mini de Dry Martini de cerca de 85 ml. Em entrevista ao NYT, Jason Hedges, o gerente de bebidas do estabelecimento, contou que tem vendido cerca de 35 minis Dry Martinis por semana, ante 80 unidades do tamanho normal do drinque.
DOCE SEM CULPA
Além de propor porções mais contidas, de que outra maneira é possível seguir apostando em um menu de sobremesas considerando a atual tendência do “menos é menos, mesmo”? Para quem trabalha na área, entretanto, há uma boa notícia. Segundo o médico endocrinologista e especialista em metabologia Rafael Radaeli, os medicamentos popularmente chamados de “canetas emagrecedoras” contêm hormônios intestinais que interagem com centros cerebrais da fome, sendo parte integrante do tratamento da doença da obesidade. Porém, nem todo medicamento interage com uma outra área do cérebro humano que controla a chamada “fome emocional” ou “fome de doce”: o chamado sistema mesolímbico.
“Por isso, tenho muitos pacientes que começam a usar um desses medicamentos e passam a comer mais doce. Porque o que se está usando não necessariamente interage com os receptores dessa área do cérebro”, diz Radaeli. Ou seja, existem pessoas que estão em tratamento com os inibidores da fome que, sim, comem doce. E, em alguns casos, até mais do que salgados.
Ainda que essa não seja a realidade generalizada, outra consequência do tratamento é a forte perda de massa magra. E, nessa seara, cuidar para ter uma dieta proteica é essencial, mesmo quando se trata de um doce.
Pensar em receitas que contenham ingredientes ricos em proteína, como clara de ovo, queijo coalho, amêndoa, castanha-de-caju, amendoim, aveia, ricota ou mesmo chocolate, pode ajudar a sobremesa a se tornar mais atrativa para quem está de dieta. Especialmente se levar o afamado suplemento Whey Protein, cuja porção de 100 g contém 86,5 g de proteína –, como lembra o médico.
“Só é preciso lembrar que o Whey não tem a mesma função das farinhas tradicionais, por exemplo, pela falta de amido em sua composição”, explica chef confeiteiro Caio Corrêa.
Já o chef confeiteiro José Paulo, dono da Bake Sale. (@bakesale.pastryshop), no bairro paulistano do Jardins, sente na pele e na constituição corpórea os efeitos do Whey Protein em doces. Isso porque ele também é atleta e, apesar de não vender doces com o ingrediente em sua loja, vem testando em casa receitas com o ingrediente. Todas compartilhadas em seu perfil do Instagram (@chefpastrybuilder), onde ensina a fazer mousses, panqueca de claras, cheesecakes etiramissù com o produto que nada mais é do que proteína de soro do leite.
“O Whey Protein em si não deixa retrogosto e não tem nenhuma função espessante. Mas muitas marcas adicionam goma xantana na composição para engrossar o shake (forma básica de consumo). Isso pode ajudar no desenvolvimento de doces mais estruturados”, aponta José Paulo, indicando sempre a leitura do rótulo. Outra recomendação é fugir das versões saborizadas – apesar de existir um verdadeiro “pomar” de opções – para buscar um produto natural (neutro), que permita criar à vontade. Ou até onde a contagem de calorias permitir.
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