A ALIMENTAÇÃO EM PAUTA: A
IMPORTÂNCIA DA MODA PARA ENTENDER A SOCIEDADE
Por que a moda está obcecada por comida e o que isso revela sobre o nosso momento cultural atual?
A alimentação sempre esteve em pauta, seja como símbolo, provocação ou linguagem estética. Desde as naturezas-mortas cubistas de Picasso até as latas de sopa Campbell de Andy Warhol, a comida serviu como narrativa, espelho cultural e matéria-prima criativa. Ela traduz valores, excessos, escassez, memória e desejo.
A relação entre moda, arte e comida também sempre existiu, mas aparentemente, está cada vez mais estreita. Se você compra roupas, acessórios ou produtos de beleza, ou simplesmente gosta de acompanhar o cenário, provavelmente, já se deparou com um balm labial com sabor de banana, um perfume inspirado no cheirinho de pão no forno, da Son Venin, em um sorvete, da Jo Malone, uma bolsa em formato de caixa de leite ou toda uma campanha em torno de uma mesa repleta de comida onde nem há um produto sendo anunciado; o que se vê é apenas um logo esculpido numa garrafa de champagne ou em formato de biscoito. Hoje em dia as marcas estão empratando seus produtos e levando à mesa. Mas quando foi que a moda passou a se referir a um prato de comida?
Uma mesa de banquete farta já sugeriu riqueza, generosidade e hospitalidade. Na arte o alimento retratado como memento mori, lembrando a fugacidade da vida e a inevitabilidade da morte dos séculos passados, aparece como um recurso simbólico para provocar reflexão sobre a mortalidade humana com elementos como caveiras, frutas apodrecidas, ampulhetas, velas apagadas ou flores murchas.
No século XX, a fotografia também atribuiu significados múltiplos à comida: como os pimentões de Edward Weston que transformou o vegetal em algo quase escultural, sensual e abstrato. Ou Laura Letinsky e suas fotos de mesas pós-refeição, com pratos usados, frutas mordidas retratando o desejo, excesso, consumo e o que resta depois do prazer.
Se na arte a comida é a protagonista, atualmente, na publicidade e na moda ela é coadjuvante. A presença de muitas baguetes em um vídeo que mostra uma influencer “se vestindo” cria apenas uma narrativa para o produto, remetendo a uma viagem a Paris, ou a roupa perfeita para visitar o Louvre? Uma bolsa empilhada em uma pilha de donuts remete para a doçura alegre da sobremesa, assim como um anel de diamante mergulhado em uma taça de martini traz poder e riqueza.
O que isso significa em um mundo onde a comida de qualidade é cada vez menos acessível? Quem consome os alimentos já tocados, retocados e manipulados para o clique perfeito?
Usar alimentos como adereço destaca o poder aquisitivo e levanta questões sobre desperdício. Quem tem dinheiro compra comida, mas não come. Veste. Cheira. Empilha. Desperdiça. Usa como cenário. Como acessório. Como símbolo de poder. Enquanto boa parte da população luta diariamente para garantir o básico, a elite ressignifica o alimento, que deixa de nutrir e passa a compor uma estética.
A comida está encarecendo. As safras minguam diante do avanço do aquecimento global. Uma nova recessão se anuncia. O alimento fresco se torna luxo e, para muitos, uma simples laranja será artigo de desejo.
Estamos desejando a comida, mas não estamos comendo.
Será porque nos tornamos a geração do Ozempic? Ou porque, diante da alta nos preços e da escassez, o alimento virou mais que um bem de consumo, virou símbolo de poder?
Como disse o crítico João Biondi:
“A moda sempre representou seu tempo. É uma das melhores lentes para entender a sociedade em que está inserida e a forma de arte mais politicamente direta que existe. Quando estudarmos a moda de 2025, vamos entender exatamente quais eram os dilemas sociais deste momento.”
A comida continuará sendo o centro do nosso universo. Sem ela, não vivemos, nem sobrevivemos. E essa centralidade vai além da fixação em cozinheiros, restaurantes e séries como The Bear, ou atores como Stanley Tucci vagando pela Itália e lançando livros para contar quantas vezes comeu fora em um ano.
Enquanto a elite se debruça nos prazeres da comida, a massa se contenta com ultraprocessados baratos e de preparo rápido. Afinal, quem tem tempo ou acesso para cozinhar com ingredientes frescos, como mostram na TV, depois de uma jornada exaustiva de trabalho e transporte público?
Que a comida sempre foi símbolo de fartura e status, ninguém discorda. Mas, ao menos, era comida, apreciada, desfrutada. Agora, o gesto de usar, cheirar, ver e não morder revela algo mais perverso: estamos transformando o alimento em um objeto de ostentação. Se moda é expressão, talvez esteja na hora de usá-la também como inspiração para mudanças positivas.
A MESA ESTÁ NA MODA
Para arrasar na cozinha e na mesa de jantar!