Num tempo em que falar de doces com pouco açúcar no Brasil era quase uma heresia – se é que ainda não é para muita gente apegada ao passado e ao paladar infantil -, a psicóloga convertida em confeiteira Marilia Zylbersztajn ousou nadar contra a corrente, bater o pé e seguir de peito erguido na contramão. Sorte nossa.

Agora, quase 13 anos após a abertura da loja que leve seu nome, na Vila Madalena, em São Paulo, ela lança seu primeiro livro, “Marilia Zylbersztajn – Receitas da Minha Cozinha para a Sua” (Ed. WMF Martins Fontes, R$ 149,90). Sim, da cozinha de onde desafiou a convenção estabelecida antecipando tendência, para a de um público que já entendeu que menos realmente é mais, que açúcar pode ser coadjuvante e que sabor é diferente de dulçor. 

Agrupadas pelos ingredientes que são parte fundamental na construção de suas criações – manteiga, farinha, ovo, chocolate, oleaginosas, mel, frutas, cachaça e queijos – as 39 receitas compartilhadas pela chef já lhe renderam muitos elogios, vendas e prêmios. Formada em pâtisserie e panificação pela Le Cordon Bleu em São Francisco e com passagem por restaurantes como o D.O.M., do chef Alex Atala, Marilia já foi três vezes eleita “Melhor Doceria” da cidade pela Veja São Paulo Comer & Beber (2014, 2015 e 2016) e duas pelo “Guia Melhor de São Paulo”, da Folha de SP (2015, 2018, 2019 e 2025).  

Estão lá, com direito a lindas fotos de Rubens Kato, os segredos da delicada torta de pera com creme de cardamomo, anis, pimenta-da-jamaica e noz-pecã e cardamomo – minha sobremesa preferida da vida -; da cremosa Explosão de Chocolate, que originalmente é feita com líquor de cacau da marca brasileira de chocolates bean to bar Mestiço, mas conta com uma opção para facilitar o preparo; e a brasileiríssima torta de limão com caju e cachaça, nascida em clima de verão e Carnaval, que reforça a preocupação de Marília em valorizar ingredientes brasileiros, preferencialmente orgânicos, vindos de pequenos produtores. Premissas das quais também não abre mão desde o início, porque sabe que cozinha é política.

Há também bolos ao longo das 192 páginas do livro. Assim como compotas para aproveitar frutas em seu máximo de dulçor, pudim e biscoitos. Mas assim como em suas vitrines, são mesmo as tortas de massas variadas que têm destaque. Em todas, entretanto, prevalece a sutileza do açúcar, a simplicidade no preparo – que muitas vezes pede atenção à técnica – e a elegância minimalista na apresentação proposta.

Sem dúvida, passear pelas páginas de “Marilia Zylbersztajn – Receitas da Minha Cozinha para a Sua” é como sentar-se ao lado da autora com uma boa xícara de café para ouvir histórias do que lhe inspirou, conhecer seus fornecedores e exaltar a diversidade dos ingredientes nacionais. É estar aberto para dividir memórias de encontros, processos, experiências, dinâmicas, buscas, sonhos e realizações enquanto ela vai mexendo o tacho e cozinhando uma nova leva de doces.

Difícil não sair inspirado.


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