Passei dias levando Stanley Tucci para a cama. Não, calma! Estou falando da leitura de “O que comi em um ano” que foi se arrastando por um tempo que parecia infinito. O livro, que começa em janeiro de 2023 até de maneira interessante, quando o ator vencedor do Globo de Ouro e do Emmy acaba de chegar a Roma para filmar Conclave, perde o sabor muito rápido. Estando em Roma é quase impossível não ter algo interessante para dividir sobre experiências gastronômicas, como quando Isabella Rossellini o leva a um restaurante que sua mãe, Ingrid Bergman adorava, onde um grupo de freiras cantam hinos para os clientes enquanto comem. Entretanto, percebemos o tom do livro quando Tucci, que se encontra em um apart-hotel não muito confortável como ele diz “Foi projetado para agradar ao ego do arquiteto”,e vê sua cozinha abastecida, por sua exigência, com macarrão, tomates enlatados e facas novas.

Talvez, esse seja o ponto mais alto do livro já entregue no amuse-bouche, porque depois a leitura segue arrastada, com anedotas sem graça, me deixando com a mesma sensação de ir ao novo restaurante da moda, pagar caro e comer muito mal.

O que eu comi em um ano é um diário que talvez deva ser lido, literalmente, em um ano porque não me motivou em devorá-lo com gula. E ler qualquer coisa relacionada a comida de um dos meus atores favoritos, deveria ter sido tão delicioso quanto uma garfada em um bolo de chocolate suculento. Apesar do livro não ter me atraído como os jantares que Tucci compartilhou com atores famosos como Cillian Murphy e a família Krasinski (ele é casado com Felicity Blunt, ou seja, é cunhado de John Krasinski), eu corri para o streaming para assistir Tucci na Itália e fucei a internet para descobrir sua linha de utensílios de cozinha, o que para mim é ótimo que ele tenha mencionado no livro, mesmo que eu não esteja procurando comprar uma panela de uma celebridade. Desconheço a intenção mas a sinceridade me obriga a dizer que soou um pouco estratégico, o que para mim, é um tanto mesquinho escrever sobre isso em um livro.

Tucci já escreveu três livros best-sellers sobre culinária, e parece que ele já disse tudo que podia sobre o assunto, já que dedicou muito espaço no livro para falar sobre comida nos lounges dos aeroportos e nas cabines da classe executiva dos aviões. Embora essas passagens sejam realmente muito chatas, elas não superam as partes sobre verificações de segurança e voos atrasados. Se eu acho que existe uma maneira de tornar o assunto sobre comida de aeroporto e avião interessante? Com certeza! Conheço muitos escritores capazes disso, porém na escrita de Tucci parece pedante, apenas isso.

O que eu comi em um ano, talvez como a vida, é uma montanha-russa. Há dias que parece que o autor simplesmente estava totalmente sem vontade de se sentar diante do computador e escrever algo interessante ou, simplesmente foi um desses dias que nada de interessante de fato acontece na vida de um ator que tem um ciclo de amizades recheadas de prêmios importantes e viaja o mundo participando de eventos, com filhos adultos e pequenos.

Quando chegamos em junho, ele janta no River Cafe em Londres com ninguém menos que Colin Firth ( o eterno Mr. Darcy) e Tom Ford. “O que conversamos não é da sua conta”, ele escreve, numa tentativa frustrada de humor que, em vez de criar intimidade, constrói uma barreira. Livros em formato de diário servem para isso, não é? Se você não quer “invadir a privacidade” dos seus amigos, por que diabos publica um diário? A resposta, claro, é mais do que óbvia.

Veja bem, sou admiradora do profissional, sempre o achei um homem elegante, discreto, que participou de filmes que eu realmente gosto como o clichê O Diabo Veste Prada (quem não?), Julie & Julia, desempenhou com maestria o papel de Clive Davis no I wanna dance with somebody que fala sobre a vida de Whitney Houston. Gosto de pessoas que gostam de comida, que sentem prazer no ato de cozinhar e servir, trazendo raros momentos em que eu realmente tive o desejo ser amiga de Tucci e poder compartilhar a mesa com ele e Felicity. Mas, infelizmente, a leitura termina com a sensação de ter conversado com alguém que não quis me dar um lugar à sua mesa. Por isso, para quem gosta de livros de culinária, deixo duas recomendações muito melhores.

Um pedante na cozinha“, afinal… E “O homem que comeu de tudo” pois, definitivamente Tucci teria muito a aprender com Jeffrey Steingarten.

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