ANTES DE KYLIE, O BOLO JÁ ERA UMA JOIA
O bolo cravejado de pedras de Kylie Jenner virou fenômeno nas redes, mas a relação entre confeitaria, joalheria, brilho e ostentação atravessa séculos. Do açúcar como símbolo de riqueza às joias comestíveis de Christian Escribà, contamos uma história em que o doce nasceu, também, para ser precioso.
Bastaram algumas pedras coloridas sobre um bolo branco para o tribunal da internet decretar uma nova tendência. No aniversário de 29 anos de Kylie Jenner, celebrado em agosto de 2026 com uma festa batizada de Princess Kitty, havia rosa, plumas, coroas, referências à estética dos anos 2000 e, claro, bolos. Um deles chamou especialmente a atenção: branco, trabalhado com bicos de confeitar e coberto por pedras de plástico coloridas e brilhantes. Nas redes, o estilo rapidamente ganhou um nome (como sempre): gem cake. Pra mim poderia ser jewllery cake…
Mas novo?
Por favor, não exagerem!
Talvez a execução seja diferente e o algoritmo tenha encontrado uma nova maneira de nos fazer desejar aquilo que já conhecíamos. Mas a ideia de transformar açúcar em ostentação e o doce em objeto de desejo é quase tão antiga quanto a própria confeitaria. Muito antes de existirem likes, o açúcar já brilhava para impressionar.
Vocês sentem, como eu, Carême se remoendo no tumulo?
O AÇÚCAR COMO SÍMBOLO DE STATUS
Para entender por que a rede social ficou tão embasbacada com um bolo decorado com jóias, é preciso voltar alguns séculos. Lá na Europa renascentista, o açúcar não era simplesmente um ingrediente para adoçar; era caro e restrito às mesas mais abastadas e, portanto, uma demonstração de riqueza e poder. Quanto mais açúcar aparecia em um banquete, e quanto mais extraordinária fosse sua transformação, maior era a mensagem de abundância transmitida pelo anfitrião.
Esculturas inteiras eram moldadas em açúcar para decorar as mesas das cortes europeias. Figuras humanas, animais, construções, brasões e objetos eram reproduzidos em um material tão caro quanto efêmero. No casamento de Ercole I d’Este, em 1473, esculturas de açúcar foram carregadas em procissão durante os festejos. Dois anos depois, no casamento de Costanzo Sforza e Camilla d’Aragona, em Pesaro, registros descrevem uma celebração em que enormes quantidades de açúcar foram transformadas em esculturas e até utensílios de mesa.
Fica
a dica
Para entender melhor esse ponto, assista Carême – O Rebelde da Culinária. É uma série lindíssima e imperdível para entender a minha linha de raciocínio!!!
Nos séculos XVI e XVII, a escultura em açúcar atingiria seu auge nos grandes banquetes europeus. As peças podiam reproduzir trabalhos originalmente concebidos em mármore ou madeira e envolviam não apenas cozinheiros e confeiteiros, mas profissionais ligados às artes: escultores, entalhadores, miniaturistas e até ourives.
A aproximação entre confeitaria e joalheria, portanto, não é apenas uma descoberta contemporânea: as duas artes compartilham há muito tempo a mesma obsessão de transformar matéria em algo extraordinariamente precioso. A diferença é que uma esmeralda é capaz de sobreviver através de gerações, enquanto uma escultura de açúcar está condenada a desaparecer — e é justamente aí que reside parte do significado do seu luxo.
As chamadas esculturas e subtleties de açúcar não existiam para matar a fome, mas como peças de exposição. O British Museum descreve como, nos banquetes da Inglaterra elisabetana, a apresentação dos doces ganhou enorme liberdade criativa. O custo do açúcar somado ao trabalho necessário para transformá-lo fazia dessas criações símbolos de status que, com o tempo, passaram a carregar mensagens políticas.
O doce começava a ocupar um território curioso entre a comida e objeto de desejo — e essa ainda é uma questão que permanece extremamente atual. Afinal, diante de um bolo perfeitamente decorado, ainda hesitamos antes do corte. Fotografamos, filmamos, admiramos e postamos. Exibimos-nos para, só depois, nos deliciarmos com aquilo que alguém levou horas — às vezes dias — para construir. E, se pararmos para pensar, a confeitaria talvez seja uma das poucas artes em que o desaparecimento da obra faz parte da experiência.
Séculos depois dos grandes banquetes renascentistas, o confeiteiro catalão Christian Escribà faria essa aproximação de maneira quase literal. Quarta geração de uma família de confeiteiros cuja história em Barcelona remonta a 1906, Escribà construiu uma carreira em que o doce frequentemente abandona sua forma convencional. Em seu universo há bolos que explodem, peças que se movimentam, murais comestíveis, sapatos de chocolate e objetos que parecem ter saído de qualquer lugar, menos de uma confeitaria. Entre eles estão suas famosas joias comestíveis.
No início dos anos 2000, Escribà criou os Candy Glam Rings: anéis com pedras feitas de caramelo, inicialmente desenvolvidos como lembrança para os convidados de um casamento. Algumas peças que sobraram foram parar na vitrine da confeitaria e chamaram a atenção de um representante da Harrods. A brincadeira virou produto.
A confeitaria finalmente podia ser colocada no dedo. Mas Escribà foi além: ao longo dos anos, trabalhou com casas de luxo como Tiffany, Chopard e Chanel na criação de doces inspirados no universo da joalheria. Em 2014, para celebrar os 175 anos da joalheria catalã Bagués-Masriera, reproduziu em açúcar e corantes alimentícios uma das peças mais emblemáticas da casa: a libélula de Masriera.
A fronteira entre joia e confeitaria desaparecia quase completamente. Era joia? Era açúcar? Era para usar ou para comer? Talvez seja justamente esse tipo de ambiguidade que explique por que continuamos tão fascinados por doces que parecem preciosos.
Mas houve outro momento importante nessa história. Para isso precisamos voltar para 2016, quando uma imagem começou a circular pelas redes sociais: um bolo branco parecia ter sido aberto como uma rocha para revelar uma enorme formação de ametista em seu interior. O trabalho da confeiteira americana Rachael Teufel, da Intricate Icings Cake Design, no Colorado, ganhou o mainstream das redes sociais.
Para criar a ilusão de uma pedra natural dentro do bolo, Teufel abriu uma cavidade em sua estrutura e a preencheu com rock candy (cristais de açúcar), chocolate modelado, pintura e folhas de ouro. O bolo, que havia sido criado para um evento em Denver, rapidamente viralizou. Assim nascia — ou melhor, EXPLODIA nas redes — o geode cake. E, mais uma vez, a confeitaria transformava açúcar em pedra preciosa.
Apesar da minha associação para fazer você entender porque o bolo da Kylie não me surpreendeu tanto (diferente das milhões de pessoas nas redes), não posso deixar de pontuar que existe uma diferença fundamental entre o geode cake e o…. ah, me dá até um pouco de preguiça de falar: gem cake. No geode cake, o confeiteiro trabalha para produzir a ilusão da pedra. No bolo de Kylie, a pedra é mero ornamento.
Um tenta transformar açúcar em joia, em uma pedra preciosa; o outro transforma o bolo em ostentação no melhor espírito do bedazzling: cobrir superfícies com pequenas pedras brilhantes simplesmente porque tudo pode e deve brilhar.
É impossível separar o bolo de Kylie da nostalgia Y2K que, há alguns anos, voltou a contaminar a moda, a beleza e a cultura pop. Strass no celular. Strass na unha. Strass na roupa. Rosa. Plumas. Coroas. Brilho. E agora… strass no bolo.
Parte da graça dessa nova estética está justamente em sua artificialidade, e não estamos falando apenas das redes sociais. O bolo não precisa convencer ninguém de que uma ametista brotou em seu interior. A pedra está ali para ser pedra: brilhante, exagerada e assumidamente decorativa. O que importa é recuperar a estética adolescente dos anos 2000 e, com ela, abraçar o sentimento nostálgico de uma geração de millennials que cresceu querendo colocar strass em absolutamente tudo.
É exatamente por isso que funcionou tão bem. A forma muda. O nome muda. O algoritmo muda. Mas o desejo permanece intocado. Porque muito antes de Kylie Jenner cobrir um bolo com pedras, a confeitaria já tinha decidido que açúcar era o maior símbolo de status.
COMECE PELO SOBREMESAH
Para refletir, questionar e pensar confeitaria.