Toda terça-feira tem feira na rua da minha casa. E, em uma dessas terças, deparei-me com uma coisa que, de tão simples, me deixou completamente maravilhada: ervilhas frescas. Ainda dentro das vagens.

Com aquele verde lindo, as bolinhas desenhando a casca e aqueles fiozinhos que se enrolam nas pontas como pequenas gavinhas. Eu nunca tinha tido esse encontro e, talvez por isso, não tenha pensado direito: comprei 5 quilos. Sim, cinco.

O moço da banca até perguntou:

— Quer que eu debulhe?

Olhei para ele, espantada:

— Não! É a parte mais gostosa!!!

Ele me olhou um pouco assustado, mas recebeu o pagamento de bom grado.

Voltei para casa absolutamente apaixonada pelas minhas ervilhas e passei um bom tempo namorando cada uma delas. Fui abrindo as vagens com calma, debulhando uma a uma e ouvindo aquele barulhinho delicioso de cada bolinha caindo e batendo no fundo da tigela.

Eram tantas bolinhas que, por alguns dias, comi ervilhas de todos os jeitos possíveis.

Foi dessa pequena obsessão que nasceu esta torrada: pão bem dourado, uma camada generosa de ricota, cebola tostada e uma montanha de ervilhas brilhantes de manteiga.

Uma receita muito simples, dessas que não parecem precisar de receita. Mas suculenta, fresca e extremamente saborosa. Bem deliciosa!

finalizacao Ingredientes

  • PARA AS ERVILHAS

    *

    Pode substituir por tomate (sem sementes) bem, bem picadinho! Ou pimenta dedo-de-moça para um toque bem “hot”.

  • PARA A ESCALIVADA

    *

    Você quer cebolas lindamente caramelizadas e suavemente docinhas; por isso, não pese no sal!

  • PARA A RICOTA

    *

    Moída na hora, sempre, ok? Não é frescura não…

  • PARA A MONTAGEM

    *

    Usei da Fazenda Cubo

Fica
a dica

Ervilha congelada funciona lindamente aqui e, dependendo da época, pode inclusive ser mais doce do que a fresca. Só não cozinhe antes: ela pode ir congelada diretamente para a frigideira bem quente!

preparo JÁ PRA COZINHAH

DICIONÁRIO DA GASTRONOMIA • AFINAL, É TORRADA, BRUSCHETTA, CROSTINI OU TARTINE?

Pão + alguma coisa gostosa por cima. Parece simples, e é! Mas basta atravessar algumas fronteiras para a nossa boa e velha torrada com manteiga de todas as manhãs ganhar outros nomes, formatos e até pequenos (e tradicionais) rituais.

CROSTONE: pense no crostone como o irmão grandão do crostini. A palavra italiana já dá a pista: é uma fatia bem generosa de pão, tostada e servida com coberturas que também podem ser mais substanciosas como carne ou embutidos. É daquelas que, dependendo do que vai por cima, facilmente deixam de ser entrada e viram refeição.

CROSTINI: pequenos, crocantes e feitos para receber praticamente tudo o que a cozinha permitir. Os crostini são fatias menores de pão tostado, servidas com coberturas quentes ou frias e muito presentes na cozinha italiana, especialmente na Toscana. Patês, queijos, legumes, carnes… cabe muita coisa em poucos centímetros de pão.

FETTUNTA: talvez seja uma das maneiras mais bonitas de lembrar que pão e azeite não precisam de muita companhia. Na Toscana, fettunta significa, literalmente, algo como “fatia untada”. O pão é tostado, esfregado com alho cru e recebe uma quantidade generosa de azeite. E há um detalhe delicioso: tradicionalmente, a fettunta também está ligada à chegada do azeite novo, recém-extraído da primeira colheita de azeitonas. Aqui, o pão é quase uma desculpa para provar o azeite.

BRUSCHETTA: antes de tomate, queijo e todas as coberturas que passamos a associar a ela, existe o pão tostado. O próprio nome vem de bruscaretostar sobre o fogo ou as brasas. A ideia nasceu também como uma maneira deliciosa de dar nova vida ao pão que já não estava tão fresco: fatias tostadas, alho, azeite e, depois, muitos outros ingredientes. O tomate acabou se tornando uma das versões mais famosas, mas bruschetta não é sinônimo de pão com tomate.

SMØRREBRØD: na Dinamarca, a lógica muda um pouquinho. Smørrebrød significa, literalmente, “pão com manteiga”, mas o resultado pode ser muito mais elaborado do que o nome sugere. Tradicionalmente preparado sobre uma fatia de pão de centeio escuro, recebe manteiga e coberturas como arenque, salmão defumado, ovos, cebola, legumes, ervas e diferentes molhos. Nasceu como comida cotidiana e de lancheira e acabou transformado em um dos grandes símbolos da cozinha dinamarquesa. É sanduíche, mas sem a fatia de cima e, em algumas versões, com tanta coisa sobre o pão que fica difícil imaginar onde ela caberia.

PA AMB TOMÀQUET: se existe uma prova de que poucos ingredientes podem produzir algo extraordinário, os catalães têm uma boa. O pa amb tomàquet (literalmente, pão com tomate) é um dos grandes símbolos da cozinha catalã. Sobre o pão, esfrega-se tomate bem maduro até que sua polpa praticamente desapareça dentro do miolo. Depois vêm azeite e sal. Alho? Pode entrar, mas não é obrigatório. Também nasceu associado ao aproveitamento do pão que começava a endurecer. Hoje, porém, sua simplicidade faz justamente o contrário: não deixa nenhum ingrediente se esconder. Pão bom, tomate bom e azeite bom fazem toda a diferença.

TOAST: chegamos à torrada propriamente dita. No Reino Unido, toast faz parte da vida cotidiana: pão tostado, frequentemente com manteiga, aparece no café da manhã, acompanha ovos e bacon, recebe geleia ou até os famosos baked beans. E é justamente essa simplicidade que faz dela uma espécie de comfort food britânica: quente, crocante e pronta para receber o que houver vontade ou o que houver na despensa.

TARTINE: na França, uma fatia de pão com algo espalhado ou acomodado sobre ela pode virar uma tartine. No café da manhã, pode ser tão simples quanto pão com manteiga e geleia. Mas basta avançar algumas horas do dia para aparecerem versões com queijos, patês, presunto cru, salmão defumado, legumes e outras coberturas. No fim das contas, é a interpretação francesa de uma ideia que parece universal: pegue um bom pedaço de pão e coloque alguma coisa deliciosa em cima.

ENTÃO, O QUE É A NOSSA TOSTADA DE ERVILHAS?

Se estivéssemos na Itália, talvez alguém encontrasse nela um pouco de crostone. Na França, poderia perfeitamente aparecer no cardápio como tartine. Em inglês, provavelmente seria uma pea toast. Mas estamos por aqui e, em bom brasileiro, podemos simplesmente chamar de TORRADA. Porque, seja toasttartinecrostone ou torrada, a lógica continua deliciosamente parecida: pão tostado + uma cobertura caprichada = uma refeição que não precisa de muito entendimento nem explicação!

PARA MUITA
DELICIOSIDADE

O segredo aqui está no equilíbrio: a doçura da ervilha e da escalivada, o perfume do limão e a cremosidade da ricota. É essa combinação que faz uma montanha de ervilhas sobre o pão ser muito mais do que… uma montanha de ervilhas sobre o pão.

E não economize nas ervilhas! A graça é ter uma torrada bem carregada, com algumas delas inevitavelmente escapando para o prato e se misturando ao molho amanteigado que ficou no fundo. Depois é só ir pescando uma por uma, e lamber os dedos!

Mais uma mordida?

Para um lanche rápido e de lamber os dedos (literalmente)