Deixar-se perder pelas ruas de Paris, sem pressa ou direção, é, a meu ver, a melhor forma de conhecer a cidade — seguida, sem dúvida alguma, pela experiência de se guiar pelo paladar. Quantas e quantas delícias já experimentei nas andanças a esmo por lá. Lugares aos quais, em sua grande maioria, não saberei voltar pelo simples fato de que, na hora, mal sabia onde estava.

Mas em minha última viagem à capital francesa, com pouco tempo disponível e determinada a trazer na bagagem o máximo de referências doces possíveis, preparei cuidadosamente um guia dos lugares imperdíveis. Lojas de chefsrenomados, doces cujo sabor por muito tempo só imaginei através de fotos e indicações enfáticas de amigos.

Foi uma sequência alucinante de oito confeitarias em menos de 12 horas — às vezes com direito a mais de um doce por estabelecimento — e uma padaria no meio. Nem todos foram degustados in loco, até porque muitas lojas operam apenas para retirada. Por isso  – e para otimizar o tempo escasso – acabei deixando vários para provar de uma só vez em uma grande degustação noturna, no quarto do hotel.

Recomendo a overdose? Não. O ideal é ir aos poucos, provando cada criação em alguma praça próxima para dar tempo às papilas e ao cérebro de se conectarem devidamente, criando referências gustativas profundas e evitar desastres – como o que aconteceu com o mil-folhas de Philippe Conticini, que desmoronou no deslocamento, comprometendo a avaliação.

Dito isso, vamos ao roteiro.

Pierre Hermé

Visitar uma das 19 lojas ou corners do “papa do macaron” em Paris é praticamente uma obrigação. Isso porque, a cada estação, novos sabores são lançados — como as combinações de laranja com amêndoas ou matchá com framboesa provados no inverno de 2019. É uma pena que o café instalado dentro da boutique conceito da L’Occitane, no Champs Elysées (86 avenue des Champs Elysées, 75008) ficava quase em frente à Ladurée, tenha fechado durante a pandemia. Era uma “mão na roda” para quem quisesse comparar os doces na hora, mas encontrar outras unidades da marca pela cidade não será um problema.

CEDRIC GROLET

Ali pertinho, ainda com vista para o Jardim das Tuileries, está a primeira loja do “chef celebridade”, anexa ao hotel Le Meurice (a unidade da Ópera seria inaugurada poucos meses após a minha viagem). A fila na porta, antes mesmo do horário de abertura, ajuda a localizar o endereço.

A expectativa para provar os doces que deram início à febre dos entremets que mimetizam o ingrediente principal era grande, mas o preço salgado (de 12 euros a 17 euros cada) ajudou a moderar a ansiedade. Saí de lá com apenas dois exemplares: uma pera, de sabor bem suave e delicado, e o famoso limão, que acabou dominando meu paladar por horas com uma acidez um tanto quanto incômoda. Pra mim, uma decepção. (6 Rue de Castiglione, 75001 Paris e 35 Avenue de l’Opéra, 75002)

L’Éclair de Génie

Antes de cruzar o Sena, segui até o Marais conhecer a loja mais próxima do chef Yann Couvreur. Mais por hábito do que por necessidade, acabei parando para comprar umas “minibombinhas” na L’Éclair de Génie, do chef Christophe Adam (ex-Fauchon e Hotel Crillon). O que surpreende ali é a variedade: são mais de 200 composições repletas de texturas sobre a base de pâte à choux, que se revezam em coleções que mudam a cada mês.

Circus Bakery

Pertinho da catedral de Notre-Dame, no Quartier Latin, esta padaria artesanal é hoje uma das queridinhas da cidade. Filas na porta para arrematar o que a fornada do momento oferecer são comuns, mas vale esperar alguns minutos a mais para garantir seu cinnamon bun. Feito com massa de fermentação natural e na medida certa de açúcar, ele é tido por muitos como o melhor de Paris. (63 Rue Galande, 75005)

Philippe Conticini

Ex-sócio da saudosa Pâtisserie des Rêves, o respeitado confeiteiro que iniciou sua carreira na cozinha quente — com passagens por restaurantes dignos de estrelas Michelin —, partiu para o voo solo em 2017 ao lançar a marca que leva seu nome. A loja de Saint-Germain-des-Prés, onde estive, lembra mais uma joalheria do que uma confeitaria.

Resolvi ser breve e apostar nos clássicos: um mil-folhas (que, como vocês já sabem, chegou destruído ao hotel) e o Pur Vanille. Este último é um doce de assinatura do chef que mais parece uma “batata hipnotizante”, tamanha a quantidade de pintinhas de baunilha de Madagascar presentes na glaçagem. Na composição do entremet, duja crocante, cremoso e mousse da fava insinuante. (37 Rue de Varenne, 75007)

Sadaharu Aoki

A confeitaria yogashi — que combina técnicas francesas com ingredientes japoneses — está em alta em Paris e incluir ao menos um representante no roteiro era obrigação. Formado no Japão e radicado na França há 30 anos acumulando prêmios, Aoki faz uma instigante (e deliciosa) releitura de clássicos com pegadaoriental.

Na vitrine, o matchá reina, aparecendo desde o croissant e macarons até o Floresta “Verde” e o Mont-Blanc infusionado. Entre os doces autorais, escolhi o Matchá-Azuki, feito com camadas de pasta de feijão, dacquoise de chocolate e creme de matchá(claro). Na minha grande degustação particular, ficou no topo do ranking. (35 Rue de Vaugirard 75006)

Ainda tentei conhecer as delícias de Cyril Lignac, na Rue de Sévres, mas justamente naquele dia a loja estava fechada.

Para quem estiver com “preguiça” de bater perna pela cidade (praticamente um crime, mas, acontece!) ou quiser otimizar o tempo, aqui vai uma dica: o andar térreo da Galeries Lafayette Maison concentra corners de grandes nomes da gastronomia francesa, incluindo muitos dos citados acima. Você deixa de vivenciar o clima da boutique individual de cada marca, mas os produtos ofertados valem como uma excelente amostra do que Paris tem de melhor. 


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